terça-feira, 10 de abril de 2018

O poder da história: "o futuro está logo ali, na próxima esquina"

Como estudioso da história política brasileira contemporânea, compreendo que o poder inebria. O poderoso acredita que pode fazer tudo. Com apoio dos meios de comunicação, políticos, militares e, inclusive, surfando na popularidade de setores das classes médias e de trabalhadores, aquele que está no topo do poder acredita, sinceramente, que assim será para sempre. O futuro será sempre radioso. Carlos Lacerda foi um deles. Homem poderoso, sem limites em suas ambições políticas, foi bajulado pelas elites conservadoras do país. Tumultuou o governo de Vargas, Juscelino, Jânio e Goulart. Tentou impedir as eleições de 1955. Pregou golpes militares acreditando que, com isso, ganharia a presidência da República. Com o golpe de 1964, ele chegou ao apogeu. Certamente nunca passou por sua cabeça o que viria depois: a presidência escapou de suas mãos, cassado pelo AI-5, preso em um quartel. Depois, a queda política, o declínio de seu prestígio e a ruína de sua reputação. Ele até se esforçou para ser lembrando de maneira positiva, mudando sua imagem com livros biográficos e autobiográficos. Tudo em vão. Hoje Lacerda é lembrado, quando é lembrando, como golpista, como coveiro da democracia brasileira, como um homem mau - ou mal. Um homem, enfim, de triste memória. Embora tão poderoso, outrora... embora tão bajulado, outrora...
E o general Médici? Homem com todo o poder nas mãos, crescimento econômico de 14%, Copa do Mundo... Ele, algum dia, imaginaria que seria lembrado como um assassino? Como aquele que tornou a tortura uma política de Estado? Triste memória a de Médici, como a de Lacerda, embora tão poderosos, outrora... embora tão bajulados, outrora...
Hoje Lula está preso em uma solitária. Sozinho. Sem conversar com ninguém, sem ver ninguém. Visitas somente uma vez por semana. Quem é tão poderoso para impor tanta perversidade a um homem como Lula?
O poder inebria. Inebria a ponto de fazer crer os poderosos que seu poder é para sempre. São incapazes de perceber que nada é para sempre - nem mesmo seu poder. E que o futuro está logo ali,
na próxima esquina. Que o digam Lacerda, Médici, entre tantos outros, outrora tão poderosos, outrora tão bajulados.
Texto do historiador Jorge Ferreira,  estudioso de História Política, professor da UFF.

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