sábado, 29 de setembro de 2007

Um lugar onde se encontra todo mundo...

Com o passar do tempo fica tudo muito simples. Já não faz tantas diferenças assim, o que importa importa o resto é tudo meio banal. Só sei dizer que tudo que lembro sobre este lugar começou a se desmoronar e se transformar ali no barulho daquela viagem de Trem. Dorinha, minha irmã tão carinhosa, apesar da ansiosidade que nos deixou até o último minuto, ela estava conosco e finalmente podiamos ter esperança de reunir todos novamente em algum lugar do novo horizonte que se aproximava em algum ponto distante que eu nem imaginava bem onde ficava. Eu aliás, nunca, até então, podia sequer sonhar que o mundo fosse tão grande e os pontos tão distantes um doutro. Meu pai quando vinha de Campinas, Sta. Barbára ou Americana tentou por vezes me dizer, mas eu resistia as histórias porque todo o meu mundo existia alí nos mesmos lugares: A Santos Dumont, a Bejamin, o CECAM, o ginásio Teodoro ou os caminhos da caça ou pesca. Aquele era o mundo que conhecia, ali encontrava tudo que conhecia: os amigos, os animais, as matas, os rios, a única rua central de Andradina a Paes Leme. Na primavera adorávamos brincar com as infinitas Borboletas de todas as corês, temia a Urutucruzeiro mas as demais cobras eu sequer tinha medinho porque aprendi que sobreviver estava acima de qualquer receio. Aquele, até então, era o mundo onde eu encontrava tudo, todo o mundo está ali naquele espaço minimo de 10 km...Era o lugar da minha terra, o lugar da minha felicidade, era onde eu sabia tudo que acontecia e tudo que poderia ocorrer e o que devia fazer para modificar este ou aquele fato. Meu pai por vezes , enfim, tentou me falar de algo além do horizonte. Nada vi além de Ilha Solteira, de Castilho, do Rio Feio, dos inúmeros córregos e matas de Andra. No máximo podia imaginar Araçatuba...e foi justamente em Araçatuba que subiu ao trem um Jovem que completara 18 anos e seguia viagem rumo ao desconhecido em busca de sua mãe que ele jamais conhecera. Sua história comoveu todos nós e por pouco, mesmo, minha mãe não o adotara durante a viagem. Dividimos nossa farofa, nossa pobreza. Nossa família por quase um dia inteiro ganhou ali um novo integrante. Ele morou até então num alfanato em Araçatuba e naquela semana teria chegado o dia que tanto esperava. A maioridade vinha com a esperança de encontrar sua família e quem sabe um novo destino e novas oportunidades. Ele só queria o amor de uma mãe, a companhia de irmãos, um lugar onde pudesse se sentir em casa, em família. Seus olhos nos deu durante a viagem a certeza de que tudo que tinhamos era maior do que toda a riqueza que alguém poderia ter: uma família enorme e cheia das maneiras mais diferentes, conflituosas e formas de ser, porém com um ingrediente fundamental: éramos muitos em um só e isto nos tornava muito fortes. A vida é um momento em cada momento. E aquele era o da transformação, estavamos indo pra uma selva que desconheciamos. As 14: 40 chegamos em Bauru, era o lugar que mamãe disse que iamos trocar de Trem, a famosa "Baldiação". De Trem de carvão iamos para o trem elétrico, nossa..."devia mesmo ser algo doutro mundo". E foi, entramos naquele Trem elétrico e tudo era muito silencioso, sem fumaça e cheio, muito cheio de passageiros. Todos rumo ao desconhecido: Campinas, São Paulo...no final do trilho, o sonho de trabalho e novas oportunidades. O icentivo da época não era ficar no campo, mas sim vir pra cidade grande em busca do "desenvolvimento". E foi assim que vim chegar em Campinas e fui morar ali na favela do Jardim São Marcos, nada contra as pessoas que moram em favelas, aliás tudo a favor, mas ninguem deve morar a beira de um córrego que além de não ter peixe, tem esgoto e quando chove vc pode ver sua casa inundada...Nós chegamos em Campinas em torno das 20hs, tava um friozinho de junho e me assustei e muito com tudo que vi, queria voltar mas o meu novo mundo estava diante mim e não tinha como fugirmos daquele desafio, Tinhamos que encarar e encaramos e fomos nos perdendo em cada ano dos anos todos que estamos por aqui. Eu voltei a Andradina muitas vezes a passeio, minha Mãe separou-se de meu pai, meus irmãos foram se casando e tendo muitos filhos, até eu tenho dois lindos. Dorinha morreu em setembro de 2000, papai em março de 2001. Hj quando penso neste mundo onde encontro todo mundo eu me divido entre Campinas e Andradina: lá tenho minha mãe e meus irmãos: Domingos (o egoísta da família), o Jorge, o Paulo, a Luzia, o Lourival, e aqui: eu mesmo, o Jaime, o Tejota, o Antonio, os corpos de Dorinha e Papai num número do cemitério e suas almas no Paraíso - onde nos encontraremos um dia. Se valeu a pena? Não sei, só sei que tudo podia ser muito diferente se aquela decisão de minha mãe não tivesse sido tomada. Vir pra Campinas em 1976, daquele jeito, foi uma ousadia sem tamanho, mas as mulheres, e minha mãe é uma delas, são corajosas e decididas. Assim, a história que se pode contar é esta e ela é toda uma ramificação de fatos e acontecimentos que marcam nossas vidas para todo o sempre. Eu só sei dizer que é muito dificil ter muitos lugares onde se encontra todo mundo, devia ser um lugar só...e são felizes aqueles que tem este único lugar em toda a sua vida, todos os dias, semanas, meses e anos da existência porque podem interagir em cada segundo...Contar esta história sempre foi muito dificil, falar detalhes nem pensar, são só algumas linhas de uma história que segue rumo aos mundos que desejamos em nosso pensamento e agora tudo que quero é ser cada dia mais feliz, muito mais feliz, de preferência ao lado de um grande amor e ao lado de meus maiores amores: Rafael e Sofia -minhas inifinitas riquezas...

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