segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Quase morri no verão de 72...

Triiimmmm..., o sinal do intervalo tocou e saimos da classe como se estivessemos disputando os 100 metros livres. Não fiquei tão atrás na fila...peguei o pãozinho e o suquinho, sentei ao lado do meu amigo Hiroche, um japonezinho que tinha o hábito de comprar de volta a bolinhas de gudes que perdia pra mim nos jogos do triângulo, matadinha e buraco. Enquanto eu usava um "Conga", Hiroche calçava um Tênis de verdade, todo de couro. Trazia na lancheira sempre um sanduíche de presunto e queijo, um guaranazinho e as vezes, imaginem, uma maçã argentina. Na época a maçã custava a peso de ouro. Não atoa éramos amigos, além de dividir o lanche comigo, ele perdia todas as bolinhas de gud. Ele comprava aquelas azuzinhas que vinham num garrafão grande. Naquela tarde de verão, tivemos que entrar rápidamente pra dentro do prédio da escola. Uma ventânia sacudia tudo, levantava a pueira do pátio e fazia aqueles redemoinhos em que os papéis, plásticos e folhas giravam por todos os espaços abertos. Era uma chuva daquelas que se ameaçava. Pros lados da minha casa nuvens escuras vinham como se o mundo fosse acabar em vento, "parecia que vinha um dilúvio" foi o que imaginei. Entramos todos, ficamos nas janelas das classes e a tempestade que se aproximava deu uma volta e nenhuma gota caiu em volta do Francisco Teodoro, minha escola...O sinal de fim de período tocou como sempre ás 17hs. O Hiroche queria ir jogando bolinha pelo caminho de volta pra casa, ele morava a quatro quadras da minha casa. Pra passar na casa dele eu teria depois que vir pela Rua Paraíba e cruzar o Riacho que atravessava a "rua". As chuvas frequentemente fortes de cada ano estorava as canalizações do Riacho. De matadinha a matadinha, eu era um certeiro, tinha uma pontaria impecável, acabei ganhando quase todas a bolinhas do japonês. Ele ficou na casa dele e eu segui o caminho rumo a rua Paraíba. Eu estava muito feliz, vim cantando e pulando pelo caminho...ao chegar no riacho, aquele buraco enorme, fui descendo cautelosamente pra não escorregar e cair de cabeça dentro da água...quando cheguei lá embaixo, dei um salto e pulei a correntezinha. Olhei pra água e vi um monte daqueles sapinhos pretinhos...coloquei os cadernos sobre uma parte de grama e comecei a tentar pegar alguns pra levar comigo...eu senti que a correnteza começou a aumentar aos poucos mas não liguei, continuei ali. Em questão de segundos o Riacho virou um rio, tentei subir o barranco mas fui pego pela correnteza. A chuva que não tinha caído pelos nossos lados havia transbordado em grande proporção quilometros acima do Riacho. O buraco se tornou uma enorme lagoa, com uma forte correnteza, tentei com todas as minhas forças sair mas não consegui...engolia muita água e perdi os sentidos...Eu já estava partindo pra outras bandas... Alguma coisa segurou minhas mãos e me puxou pra fora do buraco...uma delas pressionou minha barriga e vomitei sem parar toda água que bebi...Elas perguntaram: " Vc está bem?"... " Vc está bem?"...Me recuperei aos poucos...pude ver 03 garotas, do mesmo tamanho, pareciam iguais. Elas vestiam saias de pano xadrez de cores azul e branco, com camisas totalmente brancas. Naum vi os rostos, num deu tempo de agradecer, nunca tinha visto elas por ali. Quando estava conseguindo me levantar elas já tinham ido, estavam sumindo na subida da rua Paraíba, sentido contrário da cidade, em direção ao campo...Foi neste momento que percebi que talvez elas não fossem moradoras da região...Da mesma forma rápida, inesperada que tinham surgido e me tirado da água, partiram sem se apresentarem e nem me permitiram agradecer...Naquela tarde quando cheguei em casa nada contei a minha mãe e meus irmãos, apenas disse que me molhei com a chuva que caiu enquanto vinha da escola. Um tempo depois contei pra mamãe o que tinha acontecido, ela me respondeu: "eu já sabia"..."já tinham me contado"..."E vc conhece quem lhe tirou da agua, vc viu o rosto ?"...Respondi que não, apenas sabia que eram 03 garotas vestidas como o mesmo tipo de roupa, nada mais...Minha Mãe ficou em silêncio e nunca mais falou sobre o ocorrido...

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