sábado, 18 de agosto de 2007

O pesadelo de infância...

Aparecida já tinha morrido, restaram nós...10 irmãos, já não morava mais na fazenda Cafiera à beira do rio "Feio". Da cidade de Castilho ficou apenas a Certidão de Nascimento que papai e mamãe guardava numa gaveta dum guarda roupa velho que se espremia em nosso quarto pequeno com duas beliches de casal. Dormiamos em 04 meninos em cada uma delas. Minhas irmãs tinha uma cama só pra elas. A cidade de Andradina, a maior da região...era inicio da década de 70...na rua Santos Dumont a energia elétrica chegava a três quadras onde ficava nossa casa. De vizinhos...tinhamos a Família "Gurutuba", o Sr. José e o pai dele que mais tarde morreu sentado no banco localizado na calçada, onde costumavamos ouvir suas histórias. Dona Olinda e seus filhos, entre eles a Nana, (Rosangela), a primeira garota que beijei, uma morena de curvas de violão e traseiro impinado que roubou minha atenção na década de 80, quando já morava por Campinas, foi um complemento de nosso namorico de criança...A noite, na escuridão da Santos Dumont...a gente sentava a beira da fogueira sempre depois do jantar e ouviamos as histórias mais escabrosas e amedrontadoras. Dona Olinda era quem mais tentava nos deixar com medo, depois vinha minha mãe com sua paranormalidade, afinal era mamãe quem falava com os espiritos, até hoje ainda tem contátos com quem já partiu proutro lado...E como não podia ser diferente...na hora de ir dormir dava uma tremedeira só nas pernas, era só a mamãe apagar as lâmparinas e ai tudo se tornava um breu só, num dava pra ver nem a palma da mão...até dormir a impressão que se dava é que iria morrer de medo e ficava rezando pra que a luz do sol viesse logo...Não sei se era por isso..., mas talvez a razão seja outra..., hoje eu vejo as coisas como sendo tudo uma mensagem que ainda tento entender um pouco...se sucedia assim.., quando meus olhos se fechavam e eu mergulhava em sono profundo....derrepente, do nada..."abri os olhos, meu corpo misturava-se com outros, vestido com roupa de soldados, estava jogado no chão de um barracão, dos meus lados e também sobre mim soldados mortos, ensanguentados, com armas espalhadas por todos os cantos. O telhado do barracão está destruido, a luz do dia cruza os vãos misturado com fumaças escuras como se tivesse o local acabado de ser bombardeado...com medo de me levantar, de demontrar que estou vivo entre tantos mortos...tento encontrar um ponto livre no solo pra me apoiar e impulsiono meu corpo...não tenho lugar onde pôr meus pés, tenho que pisar sobre os soldados mortos...fico em desespero...pego uma arma, um fuzil...começo a caminhar tentando não pisar nas cabeças das pessoas mortas...cada passo é sempre em busca de um vão no chão...alcanço as paredes do barracão e saio por entre um dos buracos...do lado de fora... pilhas de soldados por toda a imensidão de uma planicie onde o capim se mistura a grama alta...sigo caminhando entre os mortos de uma batalha que estive presente...não há vencedores, só mortos...e caminho, caminho...e por mais que ande não consigo deixar pra trás o local da batalha...assustado, muito assustado..." Eu acordo... A luz da manhã invadindo os buraquinhos das tabuas de minha casa...Ouço o barulho de mamãe mexendo na cozinha, pulo da cama e corro até nosso fogão de lenha...um converseiro danado...é o de sempre... Olinda e minha mãe tomando café...tudo mais uma vez foi um pesadelo de todas as noites que me atormentaram até meus 10 anos de idade...depois disso vieram os sonhos que eu era o único que conseguia voar, ainda mais quando tinha ventania...e isto é outra história...

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