terça-feira, 14 de agosto de 2007

As margens do rio "Feio" e as Traíras nas Taboias...

Posso me lembrar de cada um daqueles dias... A cidade, Ilha Solteira...Tudo planejado.., ruas, praças, pontos de comércio, árvores e inclusive as larguras e comprimentos de calçadas e quarterões. Na época nada disso fazia diferença pra mim. Com um pouco mais de um metro, idade de contar nos dedos da mão, cabelos amarelados de forma natural e um pouco também em virtude do sol quente que reina sempre por ali. A casa ficava ali no Passeio Salvador, no número 415. Bem em frente morava a Magali, uma garotinha moreninha que costumava sentar a duas carteiras da minha. Coelho era um moleque peralta que roubava nossa paz costumeira com suas esquizitices. Na escola nunca nos demos bem, afinal ele tinha aquele hábito de se achar o mais forte, machão e superman...Tanto que ninguem se metia a besta de enfrentar a fera. Quando batia o sinal corriamos ao portão, muitos queriam ir embora e outros iam pra assistir a próxima vitima daquele pivete maluco (não recordo o nome, só lembro do apelido: Coelho)...Era sempre assim...E foi numa destas brigas que acabei me tornando o melhor amigo dele. O garoto que apanhou no dia anterior trouxe o irmão mais velho, alto, forte - era já um adolescente, o "Vandi", (Vanderci era o companheiro de pesca do Domingos, meu irmão). Coelho já tava quase levando as porradas quando intervi..."Sai daqui Dié"! (era como me chamavam.., um estranho diminutivo de Leonel, na verdade um apelido que nunca gostei)...-Vandi...Poh... -Vandi...é meu amigo de classe..."Este zé mané bateu no meu irmão Díé...!" -Poh Vandi...é meu amigo...Aos poucos tudo foi se acalmando...Coelho pediu desculpas e jurou nunca mais tirar uma com o irmão de Vandi...Coelho nunca se esqueceu daquele dia...até no jogo de bolinha de gud eu sentia que ele gostava de perder pra mim...Anos depois...foi o Coelho que me disse que a Magali tinha uma queda pro meu lado, (paixão de criança), e mais: no baile do ginásio ele praticamente me pôs a dançar com ela (foi minha primeira música lenta abraçadinho...)...Mas de todas as coisas, o que não deixo nunca de esquecer foi quando fomos pescar sozinhos nas margens do "Feio". As margens eram ricas de árvores cheias de cipó, em determinados pontos as Taboias cobriam quase que totalmente a água, pedaços de troncos caídos sobre o rio se confundiam com as enormes Sucuris tão comuns por lá. Mas não eram as Sucuris que meu pai falava em seus contos de aventura na barragem de Jupiá, onde trabalhava. Papai falava pra nos amedrontar das "Urutucruzeiros", cobra que mata em 40 minutos ou aleja quando passa o efeito do veneno. Pois, nada disso nos impediu, e felizmente nada aconteceu. Coelho e eu fomos pro ponto de pesca onde meu irmão Domingos e Vandi costumavam ficar: tinhamos que nos equilibrar sobre o tronco fino pra chegar até uma quantidade tão grande de Taboias que flutuavam mesmo com o peso dos pescadores. Chacalhavamos os "Minhocusus", (minhocas enormes) sobre a água e chapssss! Era uma Traíra atrás doutra. Em menos de 20 minutos pegamos umas trinta, se me lembro bem...Em casa, meu pai aplicou um sonoro sermão. Ainda hoje soa pelos meus ouvidos as palavras de meu pai...O tempo passou, nós crescemos...me tornei um mané e o Coelho nem sei que fim deu...O Feio continua por lá, dizem que está igual, mas eu duvido...Qualquer dia dou um chute por aqui e vou la conferir...Não duvide Mané, pois: Mané por Mané eu sou mais eu..., o maior dos Manés, o Manezão...

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