terça-feira, 28 de agosto de 2007

1981: A descoberta da Teologia da Libertação, encontro com a consciência de classe...

Era sábado a noite, tinha 17 anos...1981, ouvi uns cantos em coro desafinado vindo de algum lugar..., em meus pensamentos o barulho maior era das lembranças de nossa caminhada de família em busca de oportunidades, aquele apito do trem de 1976 movido a carvão..., a saudade de Andradina se misturava com a tristeza de estar distante também dos amigos da favela do São Marcos..."o que será que ocorre na rua 09? Como deve estar o Rodrigo, o sr. Armando, o Carlinhos, enfim todo mundo ali daqueles lados da favela?". Tinhamos acabado de mudar da favela do São Marcos para o Profilurb (Projeto financeiro de lotes urbanizados), uma política habitacional do Prefeito Chico Amaral...eram dois tipos de "casa": uma com um cômodo, outra com dois. Bom..., nem precisa dizer o que houve...todos que se mudaram trouxeram as madeiras, maderites, caibos, telhas de amianto (aquelas Eternit) e no fundo da parte de alvenaria se construiu outra parte da casa, de madeira...loucura meu...o conjunto habitacional virou um favelão que reunia famílias de várias favelas de Campinas..., voltando a noite...Estava sentado sobre a proteção do relógio medidor de agua, em casa naum tinha muro. Uma lua linda dividia minha vontade: voltar ao passado com as lembranças ou continuar a desfrutar o prazer de poder vê-la, lua linda...Desta vez o cântico se tornou mais forte...uma multidão subia a rua 53 em direção a caixa d'água, passavam bem em frente da minha casa...fiquei meio embasbacado com a vontade de todos, aquele som de coro todo desafinado...quando vi, lá estava eu acompanhando a novena...Novena era um jeito das Comunidades de Base levar a Igreja e a Evangelização pra dentro das casas da pessoas..., paramos numa esquina, na casa de uma senhora que mais tarde conheci como sendo Dona "Cida", era baixinha, forte, religiosa, solidária - uma guerreira...Tinha muitos jovens, entre eles, dois se destacavam: o Luís Augusto, magro como um pé de cana, e o Nivaldo - um moreno claro destes descendentes de caboclo pernanbucano, que mais tarde se tornou colega de trabalho na Unicamp. Eles liam passagens da Biblia e faziam comparações com o momento da realidade que viviamos. Falavam de um Cristo que tinha opção pelos pobres, pelos oprimidos e que a salvação passava por esta opção pela igualdade, pelo compromisso de transformação social que os Cristãos deviam ter frente as injustiças sociais. Luis Augusto tinha mania de falar sobre uma pirâmide social, "aqui na base estão os oprimidos, os pobres, o povo de Deus" , dizia sempre que a riqueza era fruto do egoísmo e da exploração sobre a maioria pobre e que Jesus foi crucificado por se um homem que lutava por amor entre as pessoas, por um mundo sem explorados e exploradores...Eles me convidaram pra missa de domingo e reunião do grupo de jovens...Quando dormi naquela noite, senti que tinha descoberto algo, derrepente passei entender os motivos da pobreza, da riqueza e que tinha que estar de um dos lados, na luta em favor dos oprimidos. Oras, eu descobri ali todo o motivo de nossa pobreza e me tornei naquela noite um soldado da classe popular do qual fazia parte, um religioso obediente de Cristo...No dia seguinte iniciou-se uma jornada que me trouxe até aqui...A presidência da Associação de Moradores, as oposições Sindicais, a Pastoral da Juventude, Operária, o movimento dos desempregados, a CUT, PT, ASSUC, STU...as orações na comunidades, os gritos nos megafones pelas ruas do Profilurb...tudo fora apenas um complemento daquela noite..., está presente em cada ato, em cada momento de enfrentamento em que estou sempre firme, ousado... na opção pelos mais fracos...Eu descobri a Teologia da Libertação, fiz uma opção de vida...uma história de lutas que naum tem fim, morrer pela justiça, viver pelas igualdades...nossa, parece aquelas bandeiras intermináveis da década de 80..."o inicio foi mais ou menos assim..."

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